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Cândida
de Bernard Shaw
Direção: Zé Henrique de Paula
da após apresentar-se no interior de São Paulo e cumprir uma temporada de casa cheia no Teatro Augusta, onde estreou em maio de 2008.

Escrito em 1895, o texto ameaça colocar em cena um adultério a ser praticado por Cândida - a devotada esposa do reverendo Morell, um pastor anglicano de ideologia socialista. Cândida encanta-se pelo aristocrata Marchbanks, um jovem poeta.  Ao invés de seguir os rumos esperados, porém, a peça tem um final surpreendente.

Ironia e irreverência marcam os personagens, incutindo ao enredo um tom de inteligência e alta teatralidade. Além dos três personagens que formam o triângulo amoroso central, completam a história o pai de Cândida, o capitalista insaciável Sr. Burgess; a secretária do reverendo Morell, Srta. Prosérpina e o assistente do pastor, reverendo Lexy Mill. A natureza da fé religiosa, o embate Socialismo versus Capitalismo, a decadência da nobreza e a Londres da era vitoriana também estão presentes na obra.
    
“A peça oferece para o grupo uma continuidade temática que interessa panoramicamente à pesquisa iniciada em R&J e Mojo. Cândida se insere dentro de uma trajetória que busca refletir sobre o gênero masculino em suas etapas de vida, além de oferecer amplo e rico material para que o Núcleo continue sua pesquisa cênica - focada na interpretação dos atores, na síntese de elementos cênicos e no desafio da linguagem”, afirma o diretor Zé Henrique de Paula.

A montagem busca, esteticamente, a limpeza e a síntese, com cenografia enxuta e funcional, figurinos sóbrios em paleta de cores reduzida, música e iluminação de natureza narrativa e cenográfica. “Há um foco altamente dirigido para o trabalho de interpretação dos atores e para a descoberta de uma linguagem cênica que ‘revele’ o espírito de Shaw, um autor com carpintaria teatral impecável e sofisticação de pensamento. O ator, nesse sentido, é a peça fundamental”, finaliza o diretor.

Cenário e figurinos, assinados pelo diretor, são pautados pela sobriedade: no palco, somente os elementos necessários e essencialmente simbólicos do universo da peça. Há uma predominância de cores escuras, acentuando a sisudez desse lar londrino da era vitoriana e funcionando como tela de fundo para a ação dos personagens. Nos figurinos, há uma busca por concretude e verdade, utilizando-se modelagens, tecidos e padronagens típicos do período.
   
A trilha original, composta pela diretora musical Fernanda Maia especificamente para a encenação, apresenta um quarteto formado por piano, violoncelo, violino e clarineta acompanhados por uma solista feminina. A música pontua as passagens de tempo dentro da peça e musicaliza as entradas em cena de cada personagem, por meio de leitmotifs com a sonoridade correspondente às características de cada um deles. A iluminação de Fran Barros evidencia a passagem do tempo (a peça se passa em um só dia, da manhã à noite) e também cria símbolos que contribuem para a construção da narrativa.

Bernard Shaw
Dramaturgo irlandês autor de mais de 60 peças, agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1925 (único prêmio que aceitou e cujo dinheiro destinou totalmente a tradução e difusão de autores suecos), paradoxalmente, Shaw é pouco montado no Brasil. Teve algumas de suas peças publicadas na década de 50 pela Editora Melhoramentos, hoje esgotadas e encontradas em sebos. Entre elas podemos destacar César e Cleópatra, Pigmalião (adaptada para cinema e teatro como My Fair Lady), Santa Joana, A Casa dos Corações Partidos, Major Bárbara e Cândida. Podemos saborear seu humor e argúcia em coletâneas através dos livros Socialismo para Milionários, da Ediouro e Teatro de Idéias, editado há alguns pela Companhia das Letras. Assistir a uma peça de Shaw é ocorrência extremamente rara no Brasil. Recentemente, Jorge Takla dirigiu My Fair Lady (já interpretada por Bibi Ferreira e Paulo Autran nos anos 60), o Grupo Tapa montou Major Bárbara e, na década de 80, Estér Góes levou à cena Santa Joana. É pouco para este homem que morreu aos 94 anos em plena atividade.


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